Depois de muito dormir e sonhar, ela acordou sorrindo. Ela simplesmente acordou meio enfeitiçada, com uma leve malicia no olhar, deixando a imaginação fluir e o coração bater. Havia bastante tempo que não se sentia dessa forma, com borboletas na barriga, e a vida parecia tão aconchegante e gostosa.
Relembrando alguns momentos, é triste pensar nas horas de esquisitices, quando se olhava para o lado e não sabia o que estava fazendo ali. Mas o carinho e o cuidado na volta para casa é a vontade que vem falando mais alto até agora. Esquisito, diferente e novo, novamente.
Ela quis parar, finalmente, em algum braço, em algum abraço. Ela ficou com saudades de não precisar de café para se sentir quente.
Ela se deu conta que era amor de apenas um dia e que tinha aceitado, mas tinha esperanças que esse amor de apenas um dia terminasse em amor. Somente. Depois de muito tempo alguém acordou suas emoções, adormecidas nas margens das estradas, das BRs. Ela quis beijar aquele cara dez vezes e ela sabe que esses caras que dá vontade de beijar dez vezes só aparece a cada dez caras. Ela sorriu da confusão desse pensamento.
Ela se olhou no espelho e se viu com os olhos borrados. Tinha dormido sem tirar a maquiagem, mas nem por isso deixou de sorrir.
Porém, toda aquela felicidade e bondade existiam somente em sua emoção, do outro lado, a vida continuava chata, e pior, cheia de gente chata. Ela era só mais uma perdida na multidão. Ela sentia vontade de estar mais perto, do lado de dentro, pedir ajuda em relação ao frio e ganhar um abraço, mas lhe era proibido querer essas simplicidades.
Ela nunca aprendeu a descartar sentimentos e muito menos aprendeu a ser descartada. Queria valorizar e ser valorizada, mas já estava enfeitiçada com esse encantamento, já que lutou a vida inteira para estar encantada.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Foi Fogo
Tive uma bela queda naquele chão molhado. De todos os meus cinco dedos, um me traiu. Tentei agarrar algo qualquer para não cair, mas meu dedo fracassou e eu não pude evitar. Levantei limpando sujeiras e arranhões do joelho. Mas o que mais machucou foi o olhar de todos sobre mim, isso abriu uma ferida. Que só doeu quando ele me pediu perdão pelo chão molhado. Era um sábado incomum, de frio e silêncios chatos. Entrei rápido naquela casa no canto da cidade, cuja a porta aberta era um quadro de rosas vermelhas e brancas. Ele me disse que eu deveria parar de falar sozinha e concordei, já que estava começando a discordar demais, de mim mesma. Fazia tanto frio que eu parei de sentir tudo ao meu redor.
No inverno, toda a minha casa é metade sua, um sorriso de uma pessoa desconhecida na estação de trem é uma lareira, pois me aquece por dentro e o primeiro abraço em uma pessoa já é meio caminho andado rumo a intimidade. Ele falava um italiano meio doído. Não conseguia entender muita coisa de seu vocabulário. Tivemos que apelar para mímicas. Isso precedia uma história de comédia, cheia de erros, e eu era uma imigrante perdida por aí nas esquinas da cidade. Mas eu o encontrei. E ele estava disposto a brincar de improvisar comigo.
Lembro de ter me encostado na janela e percebi que aquilo não era uma janela, era um quadro que retratava cortinas que ameaçou cair. Prontamente você veio ao meu encontro para me ajudar a segurá-lo e sem graça e sem desviar o olhar do chão eu pedi desculpas. Você sussurrou mais alguma coisa de um italiano incompreensível, mas que no fim eu entendi que você queria que eu parasse tanto de perder meu olhar, te ter como foco.
A lembrança mais especial do gelo, foi fogo.
No inverno, toda a minha casa é metade sua, um sorriso de uma pessoa desconhecida na estação de trem é uma lareira, pois me aquece por dentro e o primeiro abraço em uma pessoa já é meio caminho andado rumo a intimidade. Ele falava um italiano meio doído. Não conseguia entender muita coisa de seu vocabulário. Tivemos que apelar para mímicas. Isso precedia uma história de comédia, cheia de erros, e eu era uma imigrante perdida por aí nas esquinas da cidade. Mas eu o encontrei. E ele estava disposto a brincar de improvisar comigo.
Lembro de ter me encostado na janela e percebi que aquilo não era uma janela, era um quadro que retratava cortinas que ameaçou cair. Prontamente você veio ao meu encontro para me ajudar a segurá-lo e sem graça e sem desviar o olhar do chão eu pedi desculpas. Você sussurrou mais alguma coisa de um italiano incompreensível, mas que no fim eu entendi que você queria que eu parasse tanto de perder meu olhar, te ter como foco.
A lembrança mais especial do gelo, foi fogo.
Você Tem Medo
Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.
(Fabrício Carpinejar)
(Fabrício Carpinejar)
A Face Piegas da Paixão
O beijo prendeu a noite na boca. Você silenciando suas pequenas dores no meu pescoço e eu me fazendo de ninho para o teu carinho. Sabe que há um lugar no meu pescoço que é seu? Não é lavrado em cartório, não há documento de posse ou garantia contra defeito. É seu pra você ser, sem ter. ter é o primeiro passo para perder. O meu pescoço está aqui, pra você ser. Ser você, nele.
(Vitor Freire)
(Vitor Freire)
Ah Tati
Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós. A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso, como sempre. Aí teve aquela cena também. De quando eu fui te dar tchau só com a manta branca e o cabelo todo bagunçado. E você olhou do elevador e me perguntou: não to esquecendo nada? E eu quis gritar: tá, tá esquecendo de mim. E você depois perguntou: não tem nada meu aí? E eu quis gritar: tem, tem eu. Eu sempre fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me querer. Mas a gente combinou que não era amor. Você abriu minha água com gás predileta e meu sabonete de manteiga de cacau. E fuçou todas as minhas gavetas enquanto eu tomava banho. E cheirou meu travesseiro pra saber se ainda tinha seu cheiro. Ou pra tentar lembrar meu cheiro e ver se ele ainda te deixa sem vontade de ir embora. Mas ainda assim, não somos íntimos. Nada disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer. Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. Não deixa eu assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo fica ridículo molhado. Não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. (Tati Bernardi)
Ah Caio
Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o cvv às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?
Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia. Ela para e pede:
preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era... (Caio F. Abreu)
Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia. Ela para e pede:
preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era... (Caio F. Abreu)
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