terça-feira, 5 de outubro de 2010

Foi Fogo

Tive uma bela queda naquele chão molhado. De todos os meus cinco dedos, um me traiu. Tentei agarrar algo qualquer para não cair, mas meu dedo fracassou e eu não pude evitar. Levantei limpando sujeiras e arranhões do joelho. Mas o que mais machucou foi o olhar de todos sobre mim, isso abriu uma ferida. Que só doeu quando ele me pediu perdão pelo chão molhado. Era um sábado incomum, de frio e silêncios chatos. Entrei rápido naquela casa no canto da cidade, cuja a porta aberta era um quadro de rosas vermelhas e brancas. Ele me disse que eu deveria parar de falar sozinha e concordei, já que estava começando a discordar demais, de mim mesma. Fazia tanto frio que eu parei de sentir tudo ao meu redor.
No inverno, toda a minha casa é metade sua, um sorriso de uma pessoa desconhecida na estação de trem é uma lareira, pois me aquece por dentro e o primeiro abraço em uma pessoa já é meio caminho andado rumo a intimidade. Ele falava um italiano meio doído. Não conseguia entender muita coisa de seu vocabulário. Tivemos que apelar para mímicas. Isso precedia uma história de comédia, cheia de erros, e eu era uma imigrante perdida por aí nas esquinas da cidade. Mas eu o encontrei. E ele estava disposto a brincar de improvisar comigo.
Lembro de ter me encostado na janela e percebi que aquilo não era uma janela, era um quadro que retratava cortinas que ameaçou cair. Prontamente você veio ao meu encontro para me ajudar a segurá-lo e sem graça e sem desviar o olhar do chão eu pedi desculpas. Você sussurrou mais alguma coisa de um italiano incompreensível, mas que no fim eu entendi que você queria que eu parasse tanto de perder meu olhar, te ter como foco.
A lembrança mais especial do gelo, foi fogo.

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