sábado, 17 de julho de 2010

Talvez Seja Só Culpa

É tarde da noite. O relógio acabou de bater duas da madrugada e eu estou sentada aqui na clássica cadeirinha escrevendo sobre o meu clássico assunto. Você. Estou aqui, apenas com a caneta na mão olhando para o meu caderno cheio de memórias, com o meu café às vezes doce e às vezes amargo que eu tomo de qualquer forma. Nem sinto mais o gosto para falar a verdade.
Dessa vez eu resolvi parar com a minha tão presente ironia e te escrever algo bonito, mas sinceramente eu não sei por onde começar. Não estou familiarizada com a simpatia, você sabe disso.
Olho para os lados, olho para o chão e fico assustada com a pilha de bolas de papel que estão se acumulando ao redor da minha cama, coloco as mãos na cabeça, preocupada, querendo apenas escrever algo de bom sobre você, para você.
Não me entenda mal, não é que você não possui nada de bom, é que eu realmente não consigo prestar muita atenção no lado bom das pessoas quando existe tantas coisas ruins me incomodando.
Desisto, vou apelar para a caixinha de memórias. Abro aquela antiga caixa de sapatos embaixo da cama aonde estão guardados todas as minhas boas recordações. Inclusive as suas. Tem aquela foto nosso que em um momento de raiva eu rasguei em incontáveis pedacinhos e depois arrependida mandei revelar de novo. Mas isso não é uma coisa boa para se escrever. Lembro da nossa história, ela foi boa. Seria interessante escrever sobre isso se o final não tivesse sido tão ruim. Ele estragou o inicio e o meio do nosso romance. Às vezes penso se nós não poderíamos voltar atrás e construir um novo final, mas o orgulho nunca me deixará te perguntar.
Lembro da primeira vez que eu te vi, dá pra acreditar? Você com o clássico casaco preto. Agora o casaco me dá raiva, por mim você já o teria jogado no lixo faz tempo.
Respiro fundo, conto até dez duas vezes, levanto da cadeira e vou dar uma volta pela casa, bebo um copo de água. Deus, não é possível que eu não me lembro nada de bom sobre nós dois. Só consigo me lembrar o quanto você ainda me dói de vez em quando já que estou nessa necessidade inexplicável de escrever sobre você.
Acho que eu devo apenas te dizer que foi bom o quanto eu amadureci contigo, o quanto eu cresci, mas lembrei que você não pensa nisso de uma forma boa. Mas de qualquer forma é isso que vou dizer, que foi bom, que eu faria tudo de novo sem nem pensar duas vezes e não mudaria nada, não tiraria nenhuma lágrima que eu chorei e nenhum palavrão que eu te xinguei. Não tiraria nenhum beijo, nenhuma crise de riso, nenhum dia de chuva.
Eu costumava pensar que eu sempre te teria, que você sempre estaria lá por mim e acabei me esquecendo que eu deveria estar lá por você também. As pessoas cansam de esperar. Você cansou de me esperar. Eu cansei de alguma coisa em você que eu ainda não me decidi o que é. Um dia eu descubro.
Percebo que nesse momento eu bebo o café porque foi idéia sua bebermos café juntos pelo resto da vida. Me pareceu uma idéia tão perfeita. Eu poderia fazer isso, com certeza poderia. Beber café com você para o resto da vida.
Lembro de como eu nos imaginava velhinhos, você teria o cabelo branco e seria bem rock’n roll, eu seria uma velha chata sempre reclamando de tudo, mas faria silencio enquanto te observava na cadeira de balanço concentrado no seu livro, percebendo em cada gesto seu, um sinal do seu amor. Eu sei que eu não conseguiria parar de te olhar e só a morte poderia romper esse momento, mas ao que tudo indica, não iremos envelhecer juntos.
Mas quando eu me tornar em uma velha chata, vou ficar em silêncio às vezes por causa do luto dessa vontade não ter se realizado
Parece que esse é o meu vicio sabe? Me torturar, é isso que eu faço o tempo todo comigo. Eu poderia estar contigo agora, mas não estou e nem sei porque. Porque eu sou simplesmente incapaz de superar os traumas do passado para construir um futuro decente. Eu gosto é do sofrimento, admito com certa ironia.
Talvez eu apenas esteja te escrevendo esse texto por culpa. Talvez esse amor não exista mais e talvez nunca tenha existido. Mas isso é apenas um talvez muito precário. Seja como for, não vou conseguir pensar em uma única coisa boa para escrever sobre você ou sobre nós essa noite. Apenas me visite nos meus sonhos e me traga uma xícara de café. Tanto faz se estiver doce ou amargo, eu beberei de qualquer forma em um dia de chuva na cadeira de balanço.

Um comentário:

  1. exatamente como eu me sinto em relação a uma pessoa. muito tocante seu texto.

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