Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces. Porque nada te poderei dar, senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto, a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida, e eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto, e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque eu meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados, para que eu possa levar uma gota de orvalho desta terra amaldiçoada que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei. Tu irás e enconstarás tua face em outra face. Teus dedos entrelaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada,
Mas tu não saberás que quem te acolheu fui eu, porque eu fui o grande intímo da noite. Porque eu encontei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque os meus dedos entrelaçaram os dedos da névoa, suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só, como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém, porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas, serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
(Vinícius de Moraes)
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
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